sexta-feira, 5 de abril de 2013

Jornal de Letras - Desenharte de fevereiro de 2013



Faz tempo...

Não me lembro exatamente em que ano aconteceu o fato que passo a contar. Deve ter sido no início dos anos 1980, quando eu ainda estudava desenho num dos cursos ministrados pelo cartunista Jorge Guidacci. Eu queria desenhar e só pensava em começar a publicar minhas caricaturas e cartuns – mas, obviamente, queria ganhar algum dinheiro com isso. Um outro professor de desenho, o ótimo João Batista, com quem estudei antes de conhecer o Guidacci, dizia sempre: “Desenhar de graça, jamais! Grátis, meu filho, só sexo!” As duas referências desses sábios mestres me deram o embasamento que tenho hoje sobre as questões que envolvem o mercado do desenho editorial. De certa forma, tornei-me radical quanto a isso e acabei perdendo o que para muitos poderiam ser as tais oportunidades.
Numa dessas vezes, peguei na rua um tablóide desses que funcionam como jornal de bairro. Geralmente, são fraquíssimos em conteúdo editorial, cheios de anúncios e artigos de qualidade duvidosa, mas como circulam razoavelmente imaginei que poderia ser uma boa chance para começar a desenhar profissionalmente. Bom, levei o jornalzinho para casa e liguei para o número que aparecia no expediente. Sem dificuldades, marquei uma visita ao editor e, já no dia seguinte, fui para lá levando embaixo do braço um despretensioso portfólio repleto de cartuns e desenhos finalizados a nanquim. Fui recebido numa pequena sala pelo editor e por sua secretária. O tal editor, vestindo terno e gravata como um bem-sucedido empresário, passou os olhos pelos desenhos e decretou que aquele era o meu dia de sorte, já que eles estavam justamente buscando um desenhista para ilustrar o jornal. Sem demora, o engravatado encomendou um pouco de tudo que um desenhista pode fazer: caricaturas, cartuns, ilustrações e até uma tirinha de quadrinhos para a página direcionada às crianças. Fechou meu portfólio, passou-o de volta para mim e ficou me olhando como se esperasse um emocionado agradecimento. Como eu não disse nada que se assemelhasse a um “muito obrigado”, o editor perguntou: “O que foi, meu amigo? Não quer desenhar pro meu jornal?”. Eu, na minha santa ingenuidade, fiz a temida indagação que todo espertalhão odeia ouvir: “E quanto vocês vão me pagar por cada desenho?”. Aí, rolou aquele silêncio constrangedor. O sujeito, com ares de indignação, arregalou os olhos, afrouxou a gravata rubra e, salivando pelo canto da boca, perguntou: “Como assim, pagar? Eu, aqui, na maior boa vontade com um iniciante, estou abrindo um ótimo espaço para a sua arte e você ainda quer que eu te pague? Rapaz, muita gente quer este espaço aqui. Sabia?”. Daí eu respondi: “Meu amigo, quem precisa de espaço é astronauta, o que não é o meu caso. Eu preciso de dinheiro para pagar as minhas despesas. Desenhistas também pagam passagens de ônibus, também se vestem e precisam comer.”.
Depois da imediata e ríspida recusa em desenhar de graça para o sabichão de gravata, levantei-me e dirigi-me à saída, não sem antes perceber que a secretária tentava disfarçar um risinho debochado. Então, antes de sair, olhei para a tal e disse discretamente: “Seu patrão te paga para rir ou você faz isso apenas para conquistar seu espaço?”. Rapidamente a jovem desmontou o sorrisinho irritante e passou a arrumar papéis sobre a mesa. Então, fui para casa com a certeza de que perdi minha primeira grande oportunidade... de fazer fama como otário disfarçado de desenhista.

X – X – X

Em dezembro de 2012 completei 50 anos e ganhei de presente uma caricatura assinada pelo ótimo desenhista Nei Lima, que atualmente ilustra as páginas do jornal O Dia.
Eis aí, amigo leitor, uma das boas vantagens em ser amigo de desenhistas talentosos: a gente sempre ganha presentes criativos e exclusivos.

2 comentários:

pedro cartunista disse...

ESTE TEXTO TINHA DE SER POSTADO E COMPARTILHADO NO FACE TODOS OS DIAS,ZÉ!MUITO BOM...AS PESSOAS TEM DE ENTENDER,COMO VC DISSE,QUE SE TRATA DE UMA PROFISSÃO E QUE NÓS TAMBÉM NECESSITAMOS DE SOBREVIVER.INFELIZMENTE,MUITOS AINDA SE PRESTAM A ESSE TIPO DE COISA,O QUE DESVALORIZA AINDA MAIS A ARTE...PARABÉNS!ABRAÇÃO...

João Turte disse...

Além de artista de qualidade é bom de texto Zé! Amei seu artigo. Sou artista plástica por opção e secretária executiva por necessidade, e o que acabei de ler me fez, embora tardiamente, reconhecer que aceitei fazer muitos "trabalhos gratuitos", por amizade e muitas vezes tentando "mostrar" o que eu mais gostava: desenhar. Hoje, sou uma artista "bissexta", sem muito estímulo. Quase nada ganhei com minha arte e ainda ouço a famosa frase: "Como desenha bem, não quer fazer um retrato do meu filho?" De graça, naturalmente!