segunda-feira, 29 de março de 2010

Uma caricatura por uma gorjeta

Quanto paga uma editora que não é de bronze, não é de prata e nem é de ouro
Há tempos escuto histórias sobre as péssimas condições de trabalho de boa parte de nossos desenhistas. Quer sejam eles cartunistas ou ilustradores, a maioria vive se queixando do quanto as editoras pagam por um desenho.
Entendo que a queixa é velha. Porém, espanta-me o fato de saber que algumas editoras insistem em pagar valores abaixo da crítica, mesmo quando aparentemente vendem bem suas publicações. E espanta-me mais ainda o fato de muitos dos nossos desenhistas aceitarem valores tão acachapantes.
No Rio de Janeiro, existe uma dessas editoras que têm a petulância de oferecer a bagatela de R$ 35,00 por uma caricatura. O leitor não entendeu errado. Estamos falando mesmo de R$ 35,00. O ridículo valor deveria ser estudado e divulgado pelo Guinness Book como recordista absoluto na categoria farinha-pouca-meu-pirão-primeiro. Importante ressaltar que a tal editora não é pequena nem alternativa. Na verdade, trata-se de uma das maiores empresas do País, que adquiriu há pouco tempo duas outras famosas editoras cariocas. Essa editora tornou-se famosa por jogar nas bancas de jornais dezenas de revistas especializadas em passatempos. Além disso, possui muitos títulos de livros, alguns famosos e sabidamente com boa vendagem. Trata-se, portanto, de uma editora de grande porte que possui, inclusive, um parque gráfico em plena atividade, pelo qual terceiriza serviços de impressão e acabamento de livros e revistas para outras empresas do ramo. Obviamente que qualquer leitor, por mais leigo que seja, mesmo que nunca tenha completado um jogo de palavras-cruzadas na vida, sabe a qual editora estou me referindo.
Dia desses, tive acaloradas conversas com alguns dos colegas que colaboram com a tal editora. Eu não consigo entender por que um artista de talento e com alguma experiência de mercado aceita um valor como esse. Durante essas conversas, um dos colegas tentou se justificar dizendo que o mercado anda tão ruim das pernas que é melhor trabalhar por valores ridículos do que não trabalhar. Então, fica combinado assim: para não deixar de trabalhar, parte de nossos caricaturistas aceita desenhar por R$ 35,00! Outra justificativa defendida por um segundo colega afirma que, se a gente não aceitar os imorais R$ 35,00, outro profissional chega e acaba pegando o serviço. Então, fica combinado assim: trabalhar para a tal editora é como se fosse uma corrida de otários travestidos de desenhistas. O bobo que chegar primeiro pega o trabalho. Convenhamos: desenhar por 35 merrecas é coisa de trouxa mesmo.
Em outra conversa com um terceiro colaborador (ou seria trouxa?) da tal editora, o desenhista afirma que está apenas montando seu portfolio. Quer dizer, o cartunista aceita trabalhar pelos absurdos R$ 35,00 para poder apresentar no futuro um portfolio para outras editoras. Se eu, que não atuo na tal empresa especializada em publicar revistinhas de passatempos, conheço os valores nojentos que eles pagam por uma caricatura, logicamente que outros editores também devem saber. E é claro que, ao mostrar um portfolio com trabalhos publicados na citada editora, o infeliz desenhista será facilmente identificado e taxado como uma espécie de “Ricardo Eletro” do desenho. O que contamina todo o mercado editorial. Ou alguém aqui acha que um desenhista que aceita produzir um traço qualquer que seja por 35 irreais sabe negociar seu trabalho pelo fato de estar conversando com outra editora?
Outra tese defendida por um desses colegas é que, publicando na esperta editora, o desenhista pode adquirir fama e consagração no mercado editorial e, assim, será lembrado para realizar outros trabalhos. Balela total. Que eu saiba, nenhum desses colegas é conhecido como o Fulano da tal editora, como acontecia nas publicações de O Malho, Careta, O Cruzeiro, Mad e O Pasquim, cujas marcas se confundiam com as chancelas de alguns de nossos principais desenhistas.
Estas linhas não pretendem servir de crítica à tal empresa que todos os meses, há mais de trinta anos, joga nas bancas de jornais dezenas de revistinhas de passatempos. A minha bronca é mesmo direcionada a esse grupo de colegas de trabalho que, de certa forma, ajuda a prejudicar nosso capenga mercado editorial quando aceitam desenhar por inúteis R$ 35,00. Entendo que esses desenhistas façam na verdade o papel de garçons que entregam seus desenhos numa bandeja de lata, já que 35 pilas por uma caricatura se caracteriza mais como uma gorjeta do que um pagamento.
Que me perdoem os garçons, que não são nem um pouco bobos quando se trata de pagamento, mas a comparação foi inevitável. Por falar em garçom... Me deu uma vontade imensa de ir até o Largo do Machado, entrar no Lamas e pedir um “coquetel”. Saúde!

21 comentários:

Mattias disse...

Salve Zé!
Conheço essa empresa, já prestei serviços como ilustrador para ela e, uma vez ouvi do editor que meu humor era muito non-sense e que eu poderia fazer coisas mais "bobas".
Decidi não mais prestar serviços por lá em 1998.
A questão Zé, não sei se está no quanto se paga... Mas para quem se paga.
Um cartunista mais novo vai na empresa tomar um Coquetel e no meio da conversa descobre que existem cartunistas que prestam serviços para a referida empresa "há mais de década" e que o referido cartunista "tem nome". Só que, o mesmo profissional faz isso não apenas com àquela empresa, mas com muitas outras aqui e de outros estados. Se bobear, por bem menos que R$ 35,00. Só que no final das contas, R$ 35,00 para dez outras empresas serão R$ 350,00 e por aí vai.
E o pior é quando estas mesmas pessoas depois vem com discursos vazios, onde a retórica é tão confusa quanto seu caráter.
Infelizmnete, a lebre que você está levantando é uma questão muito séria. Mas para quem? Para você, para mim, para mais meia dúzia, que ainda vê o desenho de humor como coisa séria.
O problema é se o cartunista tiver que pagar a contribuição mensal para o I.N.S.S. ( que eu pago como "cartunista" )no valor de R$ 46,00. Aí se eu me propuser fazer uma caricatura por R$ 35,00 ainda me faltarão algumas notas para completar o valor da contribuição.
Penso que, enquanto não houver abdicação por parte de alguns, todos os demais ficarão fazendo papel de otário, como no texto.
Bacana teu texto, bacana a tua postura de levamtar a questão e mostrar a tua opinião.
tem outra questão bem peculiar, o valor do serviço de um cartunista em um evento, que faz com que o preço de uma caricatura possa chegar até ao valor de menos que R$ 5,00. E quase sempre, os mesmos que se sujeitam recebem os R$ 35,00 da Editora estão por aí nos eventos fazendo "3 por 1 real".
Abraço Zé

Alviño disse...

Essa história é muito antiga, Zé. Já soube de coisas desse mesmo nível ou até piores. Não é a toa que o nível dos trabalhos caiu tanto.

William Medeiros disse...

Zé, assino embaixo. Assim é melhor trabalhar de pedreiro. A diária tá mais atrativa...

Verônica S. de Souza Saiki (Very) disse...

O colega acima falou bem, não desmerecendo a diária dos pedreiros pois todo trabalho é digno! Tbm já vi muitos colegas fazerem por muito menos,acredito que qdo se está começando possa ser assim, a pessoa ainda não tem conhecimento público e aceita o que lhe oferecem. No orkut há uma comunidade de Cartunistas profissionais que debate esse polêmico assunto. Mas enquanto não for achada uma maneira de "engrandecer" a profissão dos desenhistas vai ficar assim. O problema não está em ser Cartunista e sim nas ARTES que sofrem preconceito desde o início dos tempos. Ainda não achei uma pessoa que não me olhasse diferente quando falo o nome da minha profissão.

Ray Costa disse...

Parabéns pelo texto zé!Forte abraço!

uc disse...

Ze Roberto Graúna... Por que você não disse o nome da editora em seu texto? Aliás, por que ninguém fala o nome dela? Afinal, esse valor denigre mais a empresa do que os coitados que prestam serviços para ela. Não acredito muito no ditado popular que diz que a palavra é de prata e o silêncio Ediouro...

Alan Souto Maior disse...

Faço das suas, as minhas palavras.

pryscila disse...

'É melhor trabalhar por uma quantia ridícula, do que não trabalhar'... Sinceramente, isto é mendicância e não trabalho. Portanto, 'trabalhem' com outra coisa que os recompensem pelos anos de estudo e talento desenvolvido.
Pryscila

Zé Roberto Graúna disse...

Mattias...Valeu pelo comentário. Toda essa questão bate mesmo nas mesmas teclas há anos.

Alviño... Não acho que o fato dos valores serem ridículos façam a qualidade dos trabalhos caírem. Basta ver as belas caricaturas que a tal editora publica lá. Baixa qualidade mesmo só do que se paga.

William... Mas é o que muitos dos nossos colegas andam fazendo. Quer dizer... atuando com outras coisas.

Verônica... Você tocou numa questão clássica. As artes ainda hoja não são vistas como um profissão ideal para muita gente. Então, cabe a nós artistas fazer com que esse mercado seja um pouco menos marginalizado recuzando valores ridículos por nossos desenhos.

Pry... Eu, certa vez, aconselhei um colega a fazer exatamente o que você sugeriu. Quase apanhei! Hehehe

Ao Ray, Ucha e Alan... Grande abraço!

DUARTTE disse...

Fala Zé
O texto tá beleza colocando o dedo na ferida
Concordo com vc,nós cartunistas temos que dar valor a nossa arte,senão que vai dar?
Um grande abraço

Thais Linhares disse...

Por incrívelque pareça esses 35 merréis é MAIS do que determinada produtora com 20 anos de mercado está pagando para sua equipe de criação (que ganha 20 merréis/dia) onde tem gente que faz animação 2D e 3D. Em reunião recente, reclamando da situação surreal deste "eterno estágio" o dono, que é dono da gigantesca sala, além de outras empresas, simplesmente disse: não gosta? então pede as contas!
Aí fica a pergubta que não quer calar: POR QUE NÃO PEDIR AS CONTAS??? Porque em casa, com freelas, ou até cortando a grama do vizinho, essa turma estaria ganhando mais e melhor!!! A turma precisa é se tocar...

Thais Linhares disse...

O pior, é que o ilustrador não percebe que agindo assim ele está matando seu futuro. Aprende: não vai ter pé de meia, será sempre tratado como descartável, será tão mal valorizado quanto sua arte...
Quem faz o que gosta deveria ser o primeiro a gostar do que faz!! Aprende a cobrar, aprende como funciona o mercado, galera! E para de encher o bolso de empresas milionárias às custas da sua saúde.
Deixa de ser mula!!!

Thais Linhares disse...

Sugiro uma campanha de conscientização: adote um desinformado! Se cada ilustrador profissional, pegar um desses amadores, e orientá-lo... logo logo acabam os abusos. Garanto que no fim todos, até as ditas empresas exploradoras, acabarão ganhando com o maior profissionalismo do mercado.

jaka disse...

que triste isso hein, tenho dois amigos que colaboram com a dita cuja.

Pat disse...

Vc vive num país em que se obriga a pessoa a trabalhar 220 horas mensais para se ganhar 550 reais brutos (com todos os descontos, chega a perder até 200 reais).
Logo chegará o tempo em que se trabalhará por um prato de comida e um canto pra dormir.
Não há espanto nenhum em nada disso. Vc vive num país em que ser honesto é ser otário e trabalho honesto é só pra evitar morrer de fome. Pra ganhar bem por aqui só sendo pilantra, pois sem esse talento, outros talentos ou experiências não servem de nada.

Lili Detoni disse...

Agora, imagine se o ilustrador for "mulher", Zé... É por isso que eu deixo de desenhar a trabalho... é por isso que eu faço bichinhos de pano pra vender na feirinha de artesanato, meu amigo... Lá, o bichinho é valorizado, vendo cada um por muuuuito, mas muuuuitomuitomuito mais que 35,00 e ainda consigo vendê-los na Itália a preço de Euros!
Mas, ainda tenho uma vaga esperança de ilustrar bons livros e ver meu trabalho editado com dignidade. Mas, enquanto isso, pra não serví-lo em bandejas de lata, fico quietinha, à espera de um pouco mais de atenção e respeito por parte dessas empresas.
Bjim e saudadim!
Lili Detoni.

Ray Costa disse...

Sua iniciativa é sempre positiva e verdadeira. Mas apenas ilustrará este momento. Enquanto se a molha o pão na cerveja, porque sabemos muito bem que cartunista gosta mais de cerveja do que de vinho. Isso sempre se estenderá. Tigela aquela que esteve presente no último encontro dos cartunistas cariocas. Então é mais complicado do que se pensa. Mas gostei do movimento gerado pelo seu texto. E é isso que importa. Aquele forte abraço.

Diego Novaes disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Diego Novaes disse...

Minha gente, resolvi excluir o comentário que tinha feito pois acabei sendo anti-ético ao mencionar um colega meu.

Mas Zé, continuo concordando com você plenamente em relação ao que se paga no mercado em geral.

Agora vou embora que pra mim esse assunto já deu.

Ricky disse...

Tem que ter compreensão com os artistas que acbam aceitando se aviltarem, embora achemos que estejam errados.
Alguns vão por falta de caráter, outros por falta de grana ou opções para publicar.

A questão não é individual. É coletiva.

Infelizmente os desenhistas não pensam em se organizar (de um modo geral, pois há os batalhadores - alguns deles aqui nesta página).

Já que nao temos um sindicato, teriamos que ter uma associação combativa e representativa que encarasse de frente essas questões.

Não adianta (muito) um desenhista recusar um coquetel de merrecas. Uma associação que pressionasse, que chiasse, envolvendo a imprensa - que discutisse uma tabela - teria mais força (e mesmo assim...)

Algumas sementes estão sendo adubadas neste sentido, mas gente precisamos nos organizar e rapidamente!!

souza cartoonist disse...

Belo texto Zé!
Adorei Mattias só corroborou com o Zé! Assino em baixo do texto do Rick, se houver essa reunião e união to dentro.
Thais assino em baixo.
Parabéns zè.