sexta-feira, 8 de maio de 2009

Que pena, Adilson!



Entre os anos de 1988 a 1999, trabalhei no Senac como agente de formação profissional. Os AFPs, como éramos chamados, nada mais eram que professores de cursos técnicos e profissionalizantes que atuavam em todas as áreas possíveis do comércio. Esse nome aparentemente bonitinho foi inventado apenas para criar uma nova categoria de professores e, principalmente, para pagar salários ainda mais baixos. No meu caso, eu era um AFP da área de comunicação e artes.
Mesmo com todas as dificuldades em ministrar aulas de desenho sem as condições ideais, vivenciei algumas das experiências mais interessantes nos anos que permaneci naquela instituição. Ensinei algumas coisinhas e aprendi muito também, mas a maior alegria que tínhamos lá era descobrir novos talentos para a ilustração, o humor gráfico e as histórias em quadrinhos. Muitos dos meninos que frequentaram as aulas no Senac estão hoje atuando no mercado editorial, como o Cláudio Jorge, que trabalha para o meio evangélico; o Mattias, que coordena o Projeto Sorrialengo, e o Vitor Vanes, que ilustra livros infanto-juvenis. Infelizmente, nem sempre aqueles mais talentosos conseguem conquistar de forma real seu espaço e deixar marcados na história seus nomes, seus traços e suas ideias.
Adilson Miguel Mendonça apareceu no Senac de Madureira num dia qualquer de 1991. Trouxe embaixo do braço um caderno pautado cheio de desenhos bem interessantes e carregados de influências no Mauricio de Sousa, seu grande ídolo. Apesar da apresentação bastante amadora, seus desenhos, finalizados com caneta hidrocor, eram bem maduros para alguém que, até aquele momento, era totalmente autodidata. Aos poucos, conforme Adilson foi frequentando algumas aulas, seu trabalho ganhou qualidade, mostrando um dos melhores desenhos a bico de pena que eu vi em todos esses anos. Adilson tinha um traço firme e ligeiro. Gostava especialmente de usar um bico de pena diferente dos muitos que comprávamos nas papelarias especializadas. A pena de que ele mais gostava era torta, e nós ficávamos lá tentando entender como era possível desenhar de forma tão firme com uma peça aparentemente tão irregular. Possuía, além do talento de desenhista, uma facilidade incomum para criar roteiros para histórias em quadrinhos, assim como piadas para tirinhas e cartuns.
Mesmo com toda qualidade, seus desenhos ficaram quase no anonimato. Tentou por anos publicar seus personagens, mas por algum motivo isso não passou de um sonho. Mesmo assim, por meio da editora Caderno de TV, publicou alguns ótimos trabalhos nos jornais Diário do Paraná (PR), O Pioneiro (RS), União (PB) e Hoje (MG) entre outros pouco conhecidos.
Sua especialidade era transformar as pessoas em personagens de quadrinhos. Eu mesmo fui diversas vezes retratado como um bonequinho de desenho animado. Não tinha quem não gostasse de se ver como uma criação do Adilson. Os próprios colegas de turma o incentivavam sempre. Numa das aulas no Senac, cheguei a registrar numa fotografia um desses momentos. Na foto, Adilson aparece desenhando e em volta uma platéia de colegas observa e se diverte tentando descobrir quem é boneco da vez.
Das muitas exposições que organizei por aí, Adilson participou de duas. Na mostra “Santos Dumont – Caricaturas”, foi o autor do desenho que ilustrou o convite do evento que aconteceu no Clube de Aeronáutica, em 1993; e criou uma interessante caricatura do Chico Buarque na mostra “Imenso Cordão”, que homenageou os 50 anos de vida do compositor, no Museu Nacional de Belas Artes, em 1994. Nesse mesmo período, foi parar na escola de desenho Oberg, na qual passou a ensinar sua arte para a gurizada. Chegou a fazer alguns trabalhos bem interessantes na área de animação e deixou seu estilo em alguns anúncios de TV e propagandas eleitorais.
Adilson participou de alguns bons projetos, mas poucos ganharam espaço real. Um deles teve a participação direta de dois amigos. Por volta de 1995, André Brown e Clewerson Saremba criaram uma exposição de cartunistas para apoiar a campanha contra a fome que começava a crescer e ganhar respeito da mídia. Clewerson, considerando importante a criação de um personagem-símbolo da campanha e da exposição, desenvolveu o Menino Betinho, levou a ideia até o IBASE para mostrá-la pessoalmente a Betinho, que gostou e apoiou o projeto. “Ele achou engraçado o fato do personagem, mesmo sendo criança, ter os cabelos brancos”, nos disse André Brown. A dupla pensou então em projetar algo mais abrangente e planejaram um gibi que poderia ser distribuído nas centrais de campanha. Adilson então desenhou uma série de quadrinhos que, infelizmente, nunca foram publicados. Os desenhos foram finalizados em formato de tirinhas de três quadros e em preto e branco. Nos textos, o artista procurava ensinar algumas lições básicas de cidadania e consciência social. Remexendo nos seus arquivos pessoais, André encontrou duas dessas tiras, que nos forneceu para ilustrar este pequeno artigo. Na mesma época, um outro grupo de artistas acabou lançando um livro infantil com o mesmo nome e características. Com isso, ficaram desestimulados a continuar com o projeto, que acabou indo pro fundo de uma gaveta.
Idealizou comigo e mais uma vez com André Brown o jornal alternativo A Graúna, que durou apenas algumas edições, mas que, num momento que a Internet ainda não tinha a amplitude dos dias atuais, aumentou nossos contatos com colegas de várias partes do país.
Passou os últimos sete anos de sua vida profissional na editora evangélica Betel, para a qual trabalhou produzindo ilustrações e histórias em quadrinhos para crianças. Um belo trabalho, porém segmentado, o que praticamente manteve seu desenho pouco conhecido dos grandes editores. Na última vez que conversei com ele, meu amigo comentou sem perder seu senso de humor habitual: “Cara, eu estou trabalhando numa editora que é boa pra diabo!”.
Para quem não teve a oportunidade de conhecer os desenhos de Adilson, eu afirmo, sem medo de errar, que este brilhante cartunista dissipou seu talento na Betel. Nada contra a editora pertencente à tradicional Assembléia de Deus, mas é como se um Zico ou um Romário passasse a carreira jogando no Arapiraca Futebol Clube. Um desperdício total.
Adilson Miguel Mendonça faleceu na madrugada do dia 15 de abril, vítima de tuberculose linfática. Contava apenas 37 anos de muita arte, talento e senso de humor apurado. Mais do que um ex-aluno e genial colega de profissão, perdi um irmão querido.

Fotos:
1) Da esquerda para direita a caricaturista Laurelice, os cartunistas Adilson, André Brown e Origenes da Costa Júnior no lançamento do jornal A Graúna, em 20 de julho de 1995, na Sala Raul Seixas / FUNIARTE (Campo de São Bento - Niterói - RJ).
2) Adilson no Senac de Madureira

6 comentários:

Flamir ambrósio disse...

Oi, Zé!
Realmente fiquei triste ao saber do falecimento do Adilson. Lembro dele vagamente, principalmente do seu traço “mauríciosouzadiano”. De fato, Adilson encantava pelo grande talento, jeito simples e manso de se relacionar. Era um menino cheio de sonhos.
Que os seus olhos possam estar comtemplando os olhos no nosso Senhor e Salvador Jesus, o nazareno.
Que suas mãos, outrora deslizando expressões e alegria dos traços, possam estar tocando as vestes daEquele que é o Senhor da vida e da morte.

Um grande abraço,
nEle que reina para sempre,
Flamir

Vitor Vanes disse...

Lamentavel a perda do nosso colega Adilson!

Bonita homenagem no site !! Mais teria sido mais sincero, se essa homenagem tivesse sido com nosso colega em vida !

Vamos começar a lembrar de nossos colegas em vida! Morendo, infelizmente acaba tudo! Pelo menos aqui na terra!!

André Brown disse...

O Zé Roberto não precisava fazer qualquer homenagem em vida para o Adilson porque na verdade fez muito mais que isso. Foi o mestre do Adilson, o orientou profissionalmente, divulgou seus desenhos em exposições, lembrando do Adilson mesmo quando estava longe, incluindo-o em seus projetos, gerou para ele oportunidades de trabalho e foi amigo. A homenagem póstuma feita pelo Zé Roberto é sincera, legítima e tem um caráter de registro da passagem do Adilson com seus desenhos primorosos, pelo cenário do desenho carioca.

J.BOSCO disse...

Toda homengem,seja em vida ou depois é sinal de sinceridade e respeito!
Mestre Zé Roberto Graúna,seu trabalho de resgate é maravilhoso!
parabéns!
abraços

neilima disse...

Infelizmene não tive um contato mais próximo com o Adilson. Só o vi uma única vez quando o Zé o convidou a mostrar seu portfólio para uma possível vaga de desenhista numa Editora em que trabalhávamos.
Portanto fui testemunha de que o nosso amigo Graúna valorizava oartista em vida e porque não agora, em uma homenagem póstuma?
Penso que as pessoas deveriam pensar bem e analisar melhor o que devem escrever!

Abração, meu amiguim!

Lolly disse...

Triste.
Lembro que vc sempre falava mto dele.